quinta-feira, 14 de maio de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Todas as pessoas


Eu


Tu


Eu

Tu

Eu
Tu

EuTu

Nós
Nós
Nós
Nós

Eles

NósEles
NósEles
NósEles
NósEles

EuTu

Eu
Tu

Eu

Tu

Eu


Tu


Eu





Tu


Eu
Eu
Eu
Eu




  

domingo, 10 de agosto de 2008

E ela estava sentada.

Esperando o leite ferver. Olhando a chama do fogo crescer e queimar. Seus olhos pareciam julgar sem piedade a desenvoltura do laranja azulado. O cabelo desarrumado parecia pedir um socorro que ela teimava em não escutar. A roupa escura combinava com a sala, e os pés descalços se encolhiam no sofá. O jazz vinha do apartamento vizinho, mas parecia a trilha perfeita para aquela cena. Era uma quinta-feira e já passava das onze da noite. A falta de sono a impedia de descansar para ir trabalhar no dia seguinte, e o leite quente seria um convite à  cama.

Milhões de lágrimas bordavam as suas pálpebras. O silêncio já fazia sentido. Mas mais sentido fazia não deixar as lágrimas caírem.  Já fazia tanto tempo. Já perdera tantas noites roendo as unhas. Já permitira tantas vezes as lágrimas de se mostrarem. Mas nada mudara. O poder do choro se limitava ao alívio do momento, mas não mudava sentimentos. Uma vez fora ao mercado e encontrou por lá, no corredor de doces, as suas lágrimas pedindo para sair quando viu na gôndola as balas de que ele tanto gostava. Fugiu, mas se deparou com elas de novo no corredor de vinhos baratos. Não tinha para onde correr.

Resolveu não comprar mais balas muito menos vinhos. Não que essa fosse uma decisão inteligente, afinal as lembranças estavam muito além de doces e bebidas. Elas estavam por todas as partes, como propagandas de shampoos. Na falta do que fazer, pegou um papel e caneta numa tarde dessas e começou a escrever todas as palavras que lembravam o namoro rompido. Sabe-se que as palavras não couberam em uma tarde só. Eram lugares, pessoas, cheiros, sabores, memórias. A vontade de mostrar a lista a ele e lembrar o por quê de cada palavra estar ali era agoniante, como muitas outras vontades que surgiam durante as horas do dia.

 Tentou focar no trabalho as energias. Passava a maior parte do dia fazendo coisas que ocupavam as suas horas. Mas ao chegar em casa, a única coisa de que lembrava era dos cinco minutos em que teve vontade de pegar o celular e mandar uma mensagem, dizendo que queria estar deitada no colo dele. Tentou outros amores, outras bocas, outras mãos. Mas eram outras, e outras não a faziam sorrir ao pedirem balas e vinhos baratos. Outras não sabiam encaixar os dedos nos seus, outras não a abraçavam com força, outras não beijavam sua nuca, outras não a cutucavam na hora que a música tocava na rádio, nem a procuravam no elevador.

O leite estava começando a se transformar em bolhas de ar quando a campainha tocou. Assustada, tirou os olhos subitamente da chama e suspirou antes de levantar. No caminho até a porta procurou seus chinelos mas não os achou. Ainda tentou soltar os cabelos mas não via motivos. Abriu a porta. Com a cabeça baixa, os sapatos foram a primeira coisa que ela viu. Não precisou seu olhar chegar até o rosto da visita de noite vazia para saber que era ele. Conhecia cada milímetro de seu corpo, cada peça de roupa que ele tinha no armário, sabia que aquele cheiro era o mesmo que ela sentia antes de ir dormir. Quando seus olhos chegaram aos dele, ela já esperava a visita das lágrimas, mas essas não apareceram. Sem saber o que dizer, deixou que ele o fizesse. Sem cumprimentos mais formais, ele pediu para entrar. Ela, ainda sem reação, permitiu e acendeu a luz, não queria que ele sentisse o clima cinza em que ela estava antes dele chegar. Ele já sabia onde ficava o sofá, e foi para lá. Ela foi atrás. A fisionomia do rosto dele estava diferente. Mesmo sendo a boca e as mãos, algo mudara. Talvez a sua expressão séria, era difícil o ver assim quando namoravam, afinal ele era o sorriso em pessoa. Olhou suas roupas, eram as mesmas que ela conhecera, a camisa, aliás, era o presente do natal passado. Sentou.

Foram duas horas e trinta e oito minutos de palavras. Muitas delas estavam naquela lista da tarde pequena. As lágrimas agora apareceram, mas nos olhos dele. Já os dela estavam secos, mesmo com o coração molhado, como dizia Clarice. Não deixou de escutar nem de prestar atenção na boca um só minuto. No final, quando as palavras cansaram, a mão buscou a dela para entrelaçar os dedos daquele jeito. Ela lembrou das noites, das unhas, das balas, do vinho, da música e de tantas outras coisas. Inclusive do leite. Correu para a cozinha mas ele já tinha transbordado. Viu que não havia nada a ser feito a não ser limpar todo aquele estrago e ferver um novo leite. Depois de fazer isso, voltou para a sala e encontrou a boca e as mãos no sofá. Sentou ao lado delas, compartilhou o choro e disse:

-       Prometa que não vai deixar transbordar dessa vez.

Ele prometeu.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Orgulho


E se a porta bateu
A saudade que bata
Mas eu só paro
Quando o coração parar
de bater

Metáforas de um besouro

 
Começou a perceber que possuia algum tipo de liberdade quando suas asinhas, após um longo esforço marcado pelo martírio de ser um inútil inseto, bateram de uma forma desesperadora em busca do sair do chão das frágeis patinhas. Subiu, de uma maneira que não sabia explicar. Simplismente subiu. As asinhas não paravam de bater num intervalo de infinitos milésimos de segundo, tudo para não voltar a ser mais um no solo dos simples...bichinhos nojentos. Não! Agora tinha um diferencial, ele voava. Assim como as borboletas voam, e são belas por causa disso. Não se sentia necessariamente belo, mas as patinhas continuavam a subir. E era incontrolável o prazer de estar ali. Voou e viu tudo de cima, viu como aquela vidinha era chata e hostil. Agora era diferente. Sua alegria excitante durou pouco. Assim como parece ser tudo que nos convém. Tudo começou pela luz branca. Aquela sim deve ter sido a verdadeira causa do seu devaneio interrompido. O brilho lhe atiçou de tal maneira, que o contato foi inevitável. Foi voando, tentando se fazer de galanteador de asinhas estremecidas. Mas a luz lhe traiu, e como num intervalo menor do que o bater de suas asas, uma enorme e dura branquidão lhe atropelou e lhe fez cair. Queda pior não há de existir, como a daquele pobre besouro. De repente, acabou-se. Suas patinhas só conseguiam, ao máximo, engatinhar pelo inútil ar. Seu corpo caído e machucado, não tinha mais forças nem mesmo de se compor. Ali ficou, até não aguentar mais. E, virado com a cabeça para cima, viu de longe a luz, até a própria lhe cegar

Coreografia improvisada



Quem aqui sabe cantar? Quem aqui sabe dançar? Quem aqui sabe viver? Ah, se a vida fosse apenas mais uma coreografia bailada pelos pés da saia rodada. Simplesmente te colocam no palco e a música começa e termina quando ela bem entende. No começo fica-se um pouco perdida, sem saber o que fazer com os braços e pernas, mas aos poucos aquilo faz tão parte de você, que os passos surgem quase que intuitivamente. Tudo é tão lindo na primeira estrofe. Depois, os sons vão mudando, o ritmo acelerando e seus passos anteriores já não se encaixam tão bem assim na melodia. É preciso criar passos novos, e rápido! Antes que a música pare. Um pouco de descordenação no princípio, mas logo logo seus pés deslizam novamente como patins no gelo. Você olha para quem te olha, e descobre que não está sozinha nesse palco. Todo minuto vem alguém com passos mais elaborados tentando se destacar. E é por isso que os seus se elaboram cada vez mais e mais. De repente, em algum momento da música, os seus passos desaceleram, e os seus pés estão tão acostumados com a espontaneidade dos ritmos fervilhantes, que você luta contra a calmaria. Mas ela vem, e não tem jeito. E mais uma vez você tem que se acostumar, afinal, lembre-se que a música pára a qualquer momento. Um som suave e ao mesmo tempo melancólico surge, e seu corpo vai amolecendo e perdendo as forças, até que você olha em volta, e vê que os outros continuam a dançar rapidamente. "Por quê eu?". Respostas não existem nessa coreografia, e o jeito é correr atrás das notas perdidas. Acelera e desacelera. A música faz o que quer de você.

Dicas para o sucesso



Antes de tudo, olhe-se no espelho. Afinal, o maior segredo para o sucesso não é o talento, e sim a sua bunda. Se você for do tipo recalcada, tranque a porta do quarto, coloque um shorts (o menor e mais apertado que tiver. Se for possível, invada o armário da sua irmãzinha mais nova e faça aquilo entrar em você) e rebole. Rebole muito, em todos os ângulos, faça cara de "menina sapeca" (afinal, carisma é tudo) e mexa (muito) o cabelão. Por falar nele, este deve estar impecavelmente liso, sem um fio fora do lugar, e compridão, para dar um efeito bonito quando sacudir junto com as outras partes do seu corpo. Treine seu discurso (aquilo que os artistas falam quando se pergunta alguma coisa. Qualquer coisa). Diga que foi muito difícil chegar onde você está, que seu trabalho (o negócio da bunda e tal) é fruto de muito esforço e dedicação e que (não se esqueça dessa parte) você agradece muito a oportunidade de poder mostrar o seu "talento". Faça de tudo para aparecer em todas as capas de revistas de fofoca. Se for possível (faça um esforço), cada semana com um namorado e assim respectivas tatuagens de amor eterno. Mas lembre-se: sempre que alguém da mídia perguntar sobre a sua vida pessoal, responda: "eu não gosto de me expor". Faça um teste para a novela das oito. Bata um papinho com o diretor, e consiga, de um jeito que nem você sabe como, o papel da mocinha imortal. Cante, se quiser. Mas só se quiser, não é tão importante assim. Lembre-se de que suas músicas devem falar de decepções amorosas. Sempre. Assim, seus fãs vão sentir vontade de te levar pra casa. Nunca mude o ritmo, apenas a letra, e mesmo assim, não mude muito para facilitar a compreensão de seus fãs, e a sua também. Pose para todas as revistas masculinas, mas sinta vergonha de beijar em público. Brigue com alguém famoso, e vá ao Superpop discutir o que não tem discussão. Participe de games com artistas vestindo apenas um top e uma mini saia, e não se esqueça de ficar vermelha quando seu top e/ou saia sairem do lugar. Aproveite tudo, vá a festas, dê autógrafos (seu nome em um papelzinho, mandando beijos com gostinho de morango e muitos, muitos coraçõezinhos), dê entrevistas, não recuse nenhum convite. Afinal, quando a sua bunda cair, já era.