domingo, 10 de agosto de 2008

E ela estava sentada.

Esperando o leite ferver. Olhando a chama do fogo crescer e queimar. Seus olhos pareciam julgar sem piedade a desenvoltura do laranja azulado. O cabelo desarrumado parecia pedir um socorro que ela teimava em não escutar. A roupa escura combinava com a sala, e os pés descalços se encolhiam no sofá. O jazz vinha do apartamento vizinho, mas parecia a trilha perfeita para aquela cena. Era uma quinta-feira e já passava das onze da noite. A falta de sono a impedia de descansar para ir trabalhar no dia seguinte, e o leite quente seria um convite à  cama.

Milhões de lágrimas bordavam as suas pálpebras. O silêncio já fazia sentido. Mas mais sentido fazia não deixar as lágrimas caírem.  Já fazia tanto tempo. Já perdera tantas noites roendo as unhas. Já permitira tantas vezes as lágrimas de se mostrarem. Mas nada mudara. O poder do choro se limitava ao alívio do momento, mas não mudava sentimentos. Uma vez fora ao mercado e encontrou por lá, no corredor de doces, as suas lágrimas pedindo para sair quando viu na gôndola as balas de que ele tanto gostava. Fugiu, mas se deparou com elas de novo no corredor de vinhos baratos. Não tinha para onde correr.

Resolveu não comprar mais balas muito menos vinhos. Não que essa fosse uma decisão inteligente, afinal as lembranças estavam muito além de doces e bebidas. Elas estavam por todas as partes, como propagandas de shampoos. Na falta do que fazer, pegou um papel e caneta numa tarde dessas e começou a escrever todas as palavras que lembravam o namoro rompido. Sabe-se que as palavras não couberam em uma tarde só. Eram lugares, pessoas, cheiros, sabores, memórias. A vontade de mostrar a lista a ele e lembrar o por quê de cada palavra estar ali era agoniante, como muitas outras vontades que surgiam durante as horas do dia.

 Tentou focar no trabalho as energias. Passava a maior parte do dia fazendo coisas que ocupavam as suas horas. Mas ao chegar em casa, a única coisa de que lembrava era dos cinco minutos em que teve vontade de pegar o celular e mandar uma mensagem, dizendo que queria estar deitada no colo dele. Tentou outros amores, outras bocas, outras mãos. Mas eram outras, e outras não a faziam sorrir ao pedirem balas e vinhos baratos. Outras não sabiam encaixar os dedos nos seus, outras não a abraçavam com força, outras não beijavam sua nuca, outras não a cutucavam na hora que a música tocava na rádio, nem a procuravam no elevador.

O leite estava começando a se transformar em bolhas de ar quando a campainha tocou. Assustada, tirou os olhos subitamente da chama e suspirou antes de levantar. No caminho até a porta procurou seus chinelos mas não os achou. Ainda tentou soltar os cabelos mas não via motivos. Abriu a porta. Com a cabeça baixa, os sapatos foram a primeira coisa que ela viu. Não precisou seu olhar chegar até o rosto da visita de noite vazia para saber que era ele. Conhecia cada milímetro de seu corpo, cada peça de roupa que ele tinha no armário, sabia que aquele cheiro era o mesmo que ela sentia antes de ir dormir. Quando seus olhos chegaram aos dele, ela já esperava a visita das lágrimas, mas essas não apareceram. Sem saber o que dizer, deixou que ele o fizesse. Sem cumprimentos mais formais, ele pediu para entrar. Ela, ainda sem reação, permitiu e acendeu a luz, não queria que ele sentisse o clima cinza em que ela estava antes dele chegar. Ele já sabia onde ficava o sofá, e foi para lá. Ela foi atrás. A fisionomia do rosto dele estava diferente. Mesmo sendo a boca e as mãos, algo mudara. Talvez a sua expressão séria, era difícil o ver assim quando namoravam, afinal ele era o sorriso em pessoa. Olhou suas roupas, eram as mesmas que ela conhecera, a camisa, aliás, era o presente do natal passado. Sentou.

Foram duas horas e trinta e oito minutos de palavras. Muitas delas estavam naquela lista da tarde pequena. As lágrimas agora apareceram, mas nos olhos dele. Já os dela estavam secos, mesmo com o coração molhado, como dizia Clarice. Não deixou de escutar nem de prestar atenção na boca um só minuto. No final, quando as palavras cansaram, a mão buscou a dela para entrelaçar os dedos daquele jeito. Ela lembrou das noites, das unhas, das balas, do vinho, da música e de tantas outras coisas. Inclusive do leite. Correu para a cozinha mas ele já tinha transbordado. Viu que não havia nada a ser feito a não ser limpar todo aquele estrago e ferver um novo leite. Depois de fazer isso, voltou para a sala e encontrou a boca e as mãos no sofá. Sentou ao lado delas, compartilhou o choro e disse:

-       Prometa que não vai deixar transbordar dessa vez.

Ele prometeu.