quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Metáforas de um besouro

 
Começou a perceber que possuia algum tipo de liberdade quando suas asinhas, após um longo esforço marcado pelo martírio de ser um inútil inseto, bateram de uma forma desesperadora em busca do sair do chão das frágeis patinhas. Subiu, de uma maneira que não sabia explicar. Simplismente subiu. As asinhas não paravam de bater num intervalo de infinitos milésimos de segundo, tudo para não voltar a ser mais um no solo dos simples...bichinhos nojentos. Não! Agora tinha um diferencial, ele voava. Assim como as borboletas voam, e são belas por causa disso. Não se sentia necessariamente belo, mas as patinhas continuavam a subir. E era incontrolável o prazer de estar ali. Voou e viu tudo de cima, viu como aquela vidinha era chata e hostil. Agora era diferente. Sua alegria excitante durou pouco. Assim como parece ser tudo que nos convém. Tudo começou pela luz branca. Aquela sim deve ter sido a verdadeira causa do seu devaneio interrompido. O brilho lhe atiçou de tal maneira, que o contato foi inevitável. Foi voando, tentando se fazer de galanteador de asinhas estremecidas. Mas a luz lhe traiu, e como num intervalo menor do que o bater de suas asas, uma enorme e dura branquidão lhe atropelou e lhe fez cair. Queda pior não há de existir, como a daquele pobre besouro. De repente, acabou-se. Suas patinhas só conseguiam, ao máximo, engatinhar pelo inútil ar. Seu corpo caído e machucado, não tinha mais forças nem mesmo de se compor. Ali ficou, até não aguentar mais. E, virado com a cabeça para cima, viu de longe a luz, até a própria lhe cegar