quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Conversa com Renato



Difícil é descrever o que foi aquela troca de palavras. E eu, observando de longe, decorava casa sílaba pronunciada por aquelas bocas. 


- Vai dizer que não sabe? 
- Não sei de nada. 
- Mas, todos sabem! 
- Ora, por favor! Já disse que desconheço esse rótulo. 
- Mas, vê se pode! Um mito que não sabe que é mito! 
- O que quer? 
- Que reconheça. 
- Pois desista. 
- Insistirei. 
- Por que na minha mesa? 
- Porque é quem vende os cds e quem faz a juventude gritar. 
- Eu não faço nada. Eu escrevo, poetiso, e que culpa tenho eu, se minhas poesias ficam bem quando ritmadas? 
- Isso se chama música. 
- Descordo e concordo. 
- Explique-se. 
- Isso é o que deveria ser música, mas algumas merdinhas também recebem esse nome, infelizmente. 
- É quem vende! E isso já está de bom tamanho. 
- Não acho. 
- Porque discorda de cada palavra? 
- Porque sou poeta. 
- Ora... 
- E isso tudo é para que? 
- Quero um músico. 
- Um músico poeta ou um músico merdinha? 
- Um músico. Que me dê dinheiro. 
- Mas quanta sinceridade! 
- Não é isso que você faz o tempo todo? 
- Pode ser, mas uma sinceridade rimada é mais tolerante. 
- É complicado de conversar. 
- Mas, o que esperava? Eu crio, escrevo o que eu acho que deveria ser lido, não tenho regras, não tenho motivos, simplismente escrevo, e você vem querer me colocar num lugar onde a palavra é instrumento para pagar os seus porres? Pense. 
- Está baixando o nível. 
- Este é o meu nível. Cuspa, se quiser. 
- O que é? Um filósofo de baixo calão? 
- Deveria saber que filósofos são baixos, se assim vê. 
- Vamos ser objetivos. 
- Está falando com a pessoa errada. 
- Céus! O que peço é tão impossível assim? 
- Pedir para que minhas idéias e ideais mudem, porque convém você e à sua gente, é completamente impossível. 
- Vai se arrepender. 
- Se for preciso... 
- O que quer dizer? 
- Já ouviu minhas músicas? 
- Quem não o fez? 
- Pois bem, deveria saber que acredito nas consequências das ações. 
- Ações inteligentes, consequências inteligentes. 
- Depende. 
- Poetas... 
- Me juntar a você, pode ser inteligente para e somente para você. 
- A idéia do relativo. 
- Estamos começando a falar a mesma língua. 
- Falar a mesma língua que você? Julgo impossível. 
- Julga, é? 
- Suas letras: amor, amor...superficialidades. 
- Mas, ora só! Acha o sentimento superficial? O que é válido, então? Sua gente que tenta manipular idéias? 
- Não manipulamos. As tornamos aceitáveis. 
- Para quem? 
- Para quem ouve! 
- Mas que estupidez! Os jovens gostam é da verdade, não de um mundo cor-de-rosa, quando tudo parece estar apodrecendo. Quanta hipocrisia! 
- E quanto ao amor? 
- Sem ele, nós nada seríamos. 
- Costuma responder perguntas com trechos de músicas suas? 
- Quando convém, por que não? São palavras minhas. 
- Certo. O amor não me preocupa, e sim suas críticas desnecessárias ao nosso país. 
- Se você estivesse feliz com ele, não estaria aqui sentado na minha mesa, para arrancar dinheiro da minha arte. 
- Mesmo assim, como ousa fazer sucesso e tornar hino uma música que trata de um problema momentâneo e passageiro da nação? 
- Fala de "Que país é esse?"? 
- Obviamente. 
- E ainda diz momentâneo? Isso daqui não muda mais. Daqui uns anos, você voltará a me procurar para dizer que tenho razão. 
- Repito que é difícil conversar com você. 
- Repito que isso costuma acontecer quando um poeta e um manipulador de idéias se encontram. 
- Ora! 
- Não tem mais sentido ocupar esse lugar na minha mesa, não acha? 
- Certamente. Não há acordo. 
- Pelo menos um pensamento correto. 
- Um dia perceberá que precisa do que lhe tenho a propor, que precisa pagar suas contas, e que... 
- Eu vivo, meu senhor! E as consequências disso são pura e exclusivamente da minha conta. 
- Passar bem. 
- Passarei. 


E levantou, deixando o homem que mais fez jovens refletir e conhecer o verdadeiro sentido de viver. 


Esse texto é totalmente ficção. Ousei quando tentei escrever como Renato Russo pensava, mas é a pura imagem que faço do mesmo.