Difícil é descrever o que foi aquela troca de palavras. E eu, observando de longe, decorava casa sílaba pronunciada por aquelas bocas.
- Vai dizer que não sabe?
- Não sei de nada.
- Mas, todos sabem!
- Ora, por favor! Já disse que desconheço esse rótulo.
- Mas, vê se pode! Um mito que não sabe que é mito!
- O que quer?
- Que reconheça.
- Pois desista.
- Insistirei.
- Por que na minha mesa?
- Porque é quem vende os cds e quem faz a juventude gritar.
- Eu não faço nada. Eu escrevo, poetiso, e que culpa tenho eu, se minhas poesias ficam bem quando ritmadas?
- Isso se chama música.
- Descordo e concordo.
- Explique-se.
- Isso é o que deveria ser música, mas algumas merdinhas também recebem esse nome, infelizmente.
- É quem vende! E isso já está de bom tamanho.
- Não acho.
- Porque discorda de cada palavra?
- Porque sou poeta.
- Ora...
- E isso tudo é para que?
- Quero um músico.
- Um músico poeta ou um músico merdinha?
- Um músico. Que me dê dinheiro.
- Mas quanta sinceridade!
- Não é isso que você faz o tempo todo?
- Pode ser, mas uma sinceridade rimada é mais tolerante.
- É complicado de conversar.
- Mas, o que esperava? Eu crio, escrevo o que eu acho que deveria ser lido, não tenho regras, não tenho motivos, simplismente escrevo, e você vem querer me colocar num lugar onde a palavra é instrumento para pagar os seus porres? Pense.
- Está baixando o nível.
- Este é o meu nível. Cuspa, se quiser.
- O que é? Um filósofo de baixo calão?
- Deveria saber que filósofos são baixos, se assim vê.
- Vamos ser objetivos.
- Está falando com a pessoa errada.
- Céus! O que peço é tão impossível assim?
- Pedir para que minhas idéias e ideais mudem, porque convém você e à sua gente, é completamente impossível.
- Vai se arrepender.
- Se for preciso...
- O que quer dizer?
- Já ouviu minhas músicas?
- Quem não o fez?
- Pois bem, deveria saber que acredito nas consequências das ações.
- Ações inteligentes, consequências inteligentes.
- Depende.
- Poetas...
- Me juntar a você, pode ser inteligente para e somente para você.
- A idéia do relativo.
- Estamos começando a falar a mesma língua.
- Falar a mesma língua que você? Julgo impossível.
- Julga, é?
- Suas letras: amor, amor...superficialidades.
- Mas, ora só! Acha o sentimento superficial? O que é válido, então? Sua gente que tenta manipular idéias?
- Não manipulamos. As tornamos aceitáveis.
- Para quem?
- Para quem ouve!
- Mas que estupidez! Os jovens gostam é da verdade, não de um mundo cor-de-rosa, quando tudo parece estar apodrecendo. Quanta hipocrisia!
- E quanto ao amor?
- Sem ele, nós nada seríamos.
- Costuma responder perguntas com trechos de músicas suas?
- Quando convém, por que não? São palavras minhas.
- Certo. O amor não me preocupa, e sim suas críticas desnecessárias ao nosso país.
- Se você estivesse feliz com ele, não estaria aqui sentado na minha mesa, para arrancar dinheiro da minha arte.
- Mesmo assim, como ousa fazer sucesso e tornar hino uma música que trata de um problema momentâneo e passageiro da nação?
- Fala de "Que país é esse?"?
- Obviamente.
- E ainda diz momentâneo? Isso daqui não muda mais. Daqui uns anos, você voltará a me procurar para dizer que tenho razão.
- Repito que é difícil conversar com você.
- Repito que isso costuma acontecer quando um poeta e um manipulador de idéias se encontram.
- Ora!
- Não tem mais sentido ocupar esse lugar na minha mesa, não acha?
- Certamente. Não há acordo.
- Pelo menos um pensamento correto.
- Um dia perceberá que precisa do que lhe tenho a propor, que precisa pagar suas contas, e que...
- Eu vivo, meu senhor! E as consequências disso são pura e exclusivamente da minha conta.
- Passar bem.
- Passarei.
E levantou, deixando o homem que mais fez jovens refletir e conhecer o verdadeiro sentido de viver.
Esse texto é totalmente ficção. Ousei quando tentei escrever como Renato Russo pensava, mas é a pura imagem que faço do mesmo.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Conversa com Renato
Publicada por
Bruna Costa
à(s)
18:56
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